A vida cabe na mala

A vida cabe na mala

vida_na-malaUma querida amiga acaba de se mudar de país. E outra amiga fez o mesmo um pouco antes do Natal.

 

A primeira, para a França, por um período de 3 a 5 anos. A segunda, talvez para sempre. E para Portugal. As duas decidiram ir e assim o fizeram: de mala e cuia, filhos e maridos.

 

A mala… A misteriosa mala. O que levar na bagagem em uma viagem que pode ser para sempre? O que ficar para trás, pode não ser mais visto… O que for, foi… Como decidir o que levar, o que separar, dar, vender, emprestar, rasgar, jogar fora?

 

A que foi para Portugal contou que a mala ficava aberta, e ela ia decidindo, aos poucos, o que levar. Por exemplo, a vela da primeira comunhão do filho vai… Já a casa de praia não vai… foi vendida… Os móveis todos doados… Utensílios domésticos idem… Que roupas levar? Que livros se leva para sempre?

 

A da França, no dia de partir, foi fotografar a casa. Afinal, ela vai ser demolida, pois é de madeira e está com problemas estruturais. A casa fica… Apenas na lembrança e nas fotos recém tiradas.

 

O que mais fica? O que mais vai?

 

Apego, desapego, escolhas, prioridades, lembranças, decisões… Saudades… Os amigos não cabem na mala. Nem a família!  Que bom que o coração tem capacidade infinita de amor… Cabe tudo lá dentro, e nem tem de pesar ou controlar.

 

Que coragem dessas mulheres mães, decidindo emigrar… Se aventurar… Emigrantes do século XXI! As velhas gerações vinham de navio…

 

Segundo um grande romancista brasileiro, Renato Modernell, “nas viagens de antigamente, de navio, a alma chegava junto do corpo… Já atualmente, o corpo chega… e a alma chega depois…”

 

As duas estão lá, agora, em seus destinos… Corpo e alma, alma e corpo. Fizeram o mesmo que meus bisavós maternos… Aventuraram-se além mar. Estão lá, interagindo com outras culturas, realidades, valores.

 

mala_02Vem o consolo da modernidade, em forma de celular, internet, fotos digitais, camerinhas para a gente se ver… Mas a mala não, ela não é virtual. As escolhas em torno dela, tampouco.

 

E então eu olho ao meu redor… Fico vendo tudo o que acumulei nestes anos e me pergunto como seria a minha mala de viagem. É um exercício – acho que um belo exercício. Tanto em termos de conteúdo, como de forma.

 

Teria ela alça? Dizem que desta vida nada se leva. Mas para uma viagem, algumas coisas a gente leva! E tem que escolher!

 

Não dá para não fazer o paralelo entre a vida e a viagem, de viajar mesmo, e pensar que grande viagem é a vida! Posso até simular que também vou viajar e começar a olhar para o meu redor com olhos atentos e seletivos. E também posso querer saber como anda a minha bagagem nesta minha vida.

 

Acho que, neste quesito, pagamos um preço bem alto no caso de bagagem extra: aquele excesso de preocupações, os medos, as culpas… aquilo que pesa…

 

Então, convido quem quiser para esta pequena reflexão: o que levaria para uma viagem? Como seria a minha mala? Por que não… Como anda a minha mala nesta minha instigante viagem-vida-vidagem – sem data marcada de término?

 

Então, para quem quiser viajar nestas questões… Boa viagem!

 

mala pronta
tudo pronto
estou pronta?


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  • Cris

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    Sílvia, obrigada por compartilhar o seu texto… para mim também foi o exercício de desapego para mudar de país, mas trazendo alguns memórias comigo, o que dá uma personificada na nossa casa para chamar de lar!!! E assim, abre espaço para o novo, para novas amizades, novos adereços, novas oportunidades…
    E vamos criando raízes em outro lugar, construindo uma nova história, podendo reinventar o futuro!!!
    Um beijo, Cris cruz

    agosto 24, 2016 at 1:45 am

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